O Eleitor: Entre a Liberdade de Escolher e o Desejo de Acreditar.
Escolher parece, à primeira vista, uma das manifestações mais simples da liberdade humana.
Uma reflexão sobre a história do voto, o poder das promessas e aquilo que acontece dentro de nós quando escolhemos em quem acreditar.
Diante de algumas possibilidades, observamos, comparamos e decidimos.
Na política, essa decisão recebe um nome conhecido: voto.
Mas será que escolher é realmente tão simples?
Quando o eleitor deposita seu voto em um candidato, não está apenas apertando alguns números em uma urna.
Está transferindo, ainda que temporariamente, uma parcela de sua confiança para alguém que pretende exercer uma função pública em seu nome.O voto carrega, portanto, algo maior do que uma preferência.
Carrega uma expectativa.
Carrega esperança.
Carrega desconfiança.
E, algumas vezes, carrega até mesmo o desejo de que alguém possa realizar aquilo que o próprio sujeito não consegue realizar sozinho.
Talvez seja por isso que compreender o eleitor seja muito mais complexo do que simplesmente saber em quem ele votou.
Uma história de conquistas e exclusões.
A história do voto no Brasil é também a história de quem pôde ou não participar das decisões políticas.As primeiras eleições conhecidas em território brasileiro ocorreram em São Vicente, em 1532, quando os moradores participaram da escolha do Conselho Municipal.
Durante séculos, o direito de participar das eleições esteve submetido a diferentes condições sociais, econômicas e jurídicas.
No período imperial, por exemplo, as eleições eram predominantemente indiretas e havia critérios de renda para a participação eleitoral.
A história eleitoral brasileira, portanto, não é uma linha contínua de liberdade.
É uma história de avanços, interrupções, exclusões e conquistas.
Em 1932, a criação da Justiça Eleitoral e o novo Código Eleitoral trouxeram importantes transformações, entre elas o reconhecimento do voto feminino.
Depois vieram a redemocratização, novas restrições, o regime militar, a retomada gradual da democracia e, finalmente, a Constituição de 1988, que consolidou o sufrágio universal e assegurou o direito de voto também às pessoas analfabetas.
Olhar para essa trajetória permite perceber algo que muitas vezes esquecemos:
O direito de escolher não foi sempre uma condição natural de todos os brasileiros.
Foi uma conquista.
E justamente por ser uma conquista, merece ser exercida com responsabilidade.
Mas existe uma pergunta que surge depois de conhecermos essa história:
Conquistar o direito de escolher significa necessariamente aprender a escolher?
Talvez não.
O voto é uma escolha, mas também é uma aposta.
Quando escolhemos um candidato, não sabemos exatamente o que acontecerá depois da eleição.Podemos conhecer sua história.
Podemos estudar suas propostas.
Podemos observar suas ações anteriores.
Podemos comparar discursos.
Podemos procurar informações.
Ainda assim, existe algo que não podemos eliminar:
A incerteza.
O eleitor vota hoje em alguém que exercerá amanhã um poder que ele próprio não terá.
Por isso, o voto possui uma dimensão de confiança.
É como se o eleitor dissesse:
"Eu não posso fazer isso diretamente, então confio a você a tarefa de fazer em meu nome."
Essa transferência de confiança faz da política algo profundamente humano.
Porque confiar em alguém significa também admitir que não temos controle absoluto sobre aquilo que acontecerá.
E é justamente diante daquilo que não podemos controlar que surgem nossas expectativas.
Queremos alguém que resolva.
Alguém que proteja.
Alguém que corrija.
Alguém que represente.
Alguém que devolva aquilo que acreditamos ter perdido.
Alguém que faça o futuro parecer menos ameaçador.
É nesse ponto que a política deixa de ser apenas uma disputa de propostas e passa a tocar também o campo dos desejos.
O candidato e aquilo que ele passa a representar.
Um candidato não é recebido pelo eleitor apenas como uma pessoa.
Ele pode representar alguma coisa.
Para alguém, pode representar mudança.
Para outro, segurança.
Para outro, justiça.
Para outro, revolta.
Para outro, esperança.
E para alguém pode representar simplesmente a possibilidade de impedir que o adversário vença.
O mesmo discurso, portanto, pode produzir efeitos completamente diferentes em pessoas diferentes.
Por quê?
Porque não escutamos apenas aquilo que é dito.
Escutamos também a partir daquilo que somos.
Nossa história, nossas experiências, nossos medos, nossas expectativas e nossos desejos participam da maneira como interpretamos aquilo que encontramos.
É por isso que duas pessoas podem receber a mesma informação e chegar a conclusões completamente diferentes.
A informação é a mesma.
O sujeito não.
Quando a promessa encontra o desejo
Toda eleição é acompanhada por promessas.
Algumas são concretas e verificáveis.
Outras são genéricas.
Algumas são possíveis.
Outras parecem simples demais para problemas extremamente complexos.
Mas existe algo particularmente poderoso em uma promessa:
Ela fala do futuro.
E o futuro é o território daquilo que ainda não sabemos.
Quando alguém promete segurança, prosperidade, justiça, mudança ou reconstrução, não está apenas apresentando uma possibilidade política.
E o ser humano pode se apegar intensamente às imagens que correspondem aos seus desejos.
É aqui que a questão da manipulação se torna mais complexa.
Talvez seja insuficiente perguntar:
"Quem está manipulando o eleitor?"
Precisamos perguntar também:
"Por que determinada mensagem encontra tanta facilidade para ser aceita por esse eleitor?"
Não se trata de culpar quem é enganado.
Trata-se de reconhecer uma característica humana.
Podemos ser seduzidos justamente por aquilo que desejamos.
Uma promessa torna-se particularmente poderosa quando parece dizer aquilo que, de alguma maneira, já queríamos ouvir.
O desejo de acreditar
Existe uma diferença entre acreditar em alguma coisa porque encontramos boas razões para fazê-lo e acreditar porque precisamos que aquilo seja verdade.
Nem sempre conseguimos perceber essa diferença.
Quando uma informação confirma nossas expectativas, sentimos uma espécie de alívio.
Quando alguém diz aquilo que já pensávamos, podemos interpretar essa concordância como prova de que estamos certos.
E quando alguém apresenta uma ideia contrária, podemos experimentar não apenas discordância, mas irritação, medo ou até hostilidade.
Nesse momento, a discussão deixa de ser somente sobre ideias.
Ela passa a envolver o próprio sujeito.
É possível chegar ao ponto em que mudar de opinião parece significar perder uma parte de si mesmo.
É nesse território que a identificação se torna importante.
O sujeito pode se identificar com uma pessoa, um grupo, uma ideologia ou uma narrativa porque encontra ali algo que lhe permite dizer:
"Isso também sou eu."
Quando isso acontece, questionar aquela posição pode ser vivido como uma ameaça à própria identidade.
E talvez seja por isso que algumas discussões políticas se tornam tão emocionais.
Não estamos mais discutindo apenas candidatos.
Estamos defendendo aquilo que acreditamos ser.
Mais informação significa mais consciência?
Existe uma diferença importante entre o eleitor de outras épocas e o eleitor contemporâneo.
Hoje temos acesso a uma quantidade de informação que seria inimaginável para muitas gerações anteriores.
Podemos pesquisar a história de um candidato.
Consultar documentos.
Assistir entrevistas.
Comparar discursos.
Pesquisar votações.
Ver notícias de diferentes fontes.
Consultar informações oficiais.
A tecnologia ampliou enormemente o acesso à informação.
Mas existe uma pergunta que precisamos fazer:
Ter acesso à informação significa necessariamente conhecer a realidade?
Talvez não.
Podemos ter milhares de informações disponíveis e ainda procurar somente aquelas que confirmam aquilo em que já acreditamos.
Podemos pesquisar para conhecer.
Mas também podemos pesquisar apenas para confirmar.
Essa diferença é fundamental.
Porque o problema contemporâneo talvez não seja somente a falta de informação.
Pode ser também o excesso dela.
Quando recebemos milhares de mensagens todos os dias, torna-se necessário escolher não apenas em quem votar, mas também em que informação acreditar.
E isso nos coloca diante de uma nova forma de responsabilidade.
A tecnologia mudou, o sujeito nem tanto
As formas de comunicação mudaram profundamente.
Antes, uma pessoa precisava recorrer a jornais, livros, rádio ou televisão para buscar informações sobre um candidato.
Hoje, uma mensagem pode alcançar milhares ou milhões de pessoas em pouco tempo.
Vídeos, imagens, discursos, comentários e opiniões circulam continuamente.
A inteligência artificial e outras tecnologias ampliaram ainda mais a capacidade de produzir e distribuir conteúdos.
Isso exige do eleitor uma atenção que talvez nunca tenha sido tão necessária.
Mas existe uma ironia nisso tudo.
A tecnologia mudou.
Os meios mudaram.
A velocidade mudou.
Mas o ser humano continua desejando acreditar.
Continuamos procurando respostas.
Continuamos buscando segurança.
Continuamos desejando encontrar alguém que diga que sabe o caminho.
Continuamos vulneráveis ao medo.
Continuamos atraídos pela esperança.
E continuamos capazes de confundir aquilo que desejamos com aquilo que existe.
O perigo de acreditar que somente o outro é manipulável
Talvez uma das maiores armadilhas do eleitor seja imaginar que apenas os outros são manipulados.
É fácil olhar para alguém que pensa diferente e dizer:
"Ele está sendo enganado."
Muito mais difícil é perguntar:
"E se eu também estiver sendo conduzido por aquilo que desejo acreditar?"
Essa pergunta exige humildade.
Porque significa admitir que nossas convicções também podem ser examinadas.
Não significa abandonar nossas ideias.
Não significa acreditar que todas as opiniões possuem o mesmo valor.
Não significa aceitar qualquer discurso como verdadeiro.
Significa apenas reconhecer que nós também participamos da construção daquilo que acreditamos.
O eleitor precisa desconfiar das promessas dos candidatos.
Mas talvez precise também desconfiar das próprias certezas.
Antes de escolher, talvez seja necessário perguntar
Antes de acreditar em uma promessa, podemos perguntar:
O que está sendo prometido?
Existe uma proposta concreta ou apenas uma solução aparentemente simples para um problema complexo?
Quais emoções essa mensagem provoca em mim?
Estou analisando os argumentos ou apenas reagindo ao medo, à raiva ou à esperança?
Estou procurando informação ou apenas confirmação daquilo que já penso?
Se essa mesma promessa viesse de alguém de quem não gosto, eu a consideraria igualmente convincente?
E talvez a pergunta mais difícil seja:
O que existe em mim que deseja tanto que isso seja verdade?
Essa pergunta não precisa destruir nossas convicções.
Pode apenas torná-las mais conscientes.
O eleitor diante do próprio desejo
A psicanálise nos lembra que o sujeito não é inteiramente transparente para si mesmo.
Nem sempre sabemos por que desejamos aquilo que desejamos.
Nem sempre compreendemos por que determinadas palavras nos atingem.
Nem sempre percebemos por que determinada pessoa desperta confiança enquanto outra provoca rejeição imediata.
Isso não significa que todas as escolhas sejam inconscientes.
Significa que há uma dimensão do sujeito que não se reduz à razão consciente.
Na política, essa dimensão pode aparecer nas identificações, nas fantasias, nas expectativas e nos afetos que se ligam a determinados discursos.
Por isso, talvez seja precipitado considerar o eleitor simplesmente como alguém que "foi manipulado".
Em alguns casos, pode existir manipulação, mentira ou desinformação.
Mas para que uma mensagem seja capaz de seduzir, ela frequentemente precisa encontrar algum lugar onde possa ser acolhida.
E esse lugar pode estar relacionado ao desejo.
A próxima escolha sempre será nossa
As eleições mudam.
Os candidatos mudam.
Os partidos mudam.
As tecnologias mudam.
As estratégias de comunicação mudam.
As promessas mudam.
Mas uma coisa permanece:
O ser humano diante da necessidade de escolher.
Sempre haverá alguém prometendo um futuro melhor.
Sempre haverá alguém dizendo possuir a solução.
Sempre haverá alguém apresentando um culpado.
Sempre haverá alguém oferecendo esperança.
E sempre haverá alguém disposto a acreditar.
Por isso, talvez a maior proteção do eleitor não seja encontrar um candidato em quem possa acreditar cegamente.
Talvez seja aprender a não entregar completamente a própria capacidade de pensar a ninguém.
O voto é uma conquista histórica.
Mas a liberdade de votar não significa liberdade automática de pensar.
É possível ter o direito de escolher e, ainda assim, escolher movido pelo medo.
É possível ter acesso à informação e continuar acreditando apenas naquilo que confirma nossas expectativas.
É possível conhecer o candidato e ainda assim ser seduzido pela imagem que fazemos dele.
É possível acreditar que estamos escolhendo livremente quando, sem perceber, estamos apenas seguindo aquilo que mais desejamos que seja verdade.
Por isso, antes de perguntar:
"Quem está tentando me manipular?"
talvez seja necessário fazer uma pergunta ainda mais difícil:
"O que eu desejo tanto que seja verdade a ponto de não querer examiná-lo?"
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que um eleitor possa fazer a si mesmo.
Porque desconfiar apenas dos outros é relativamente fácil.
Difícil é aprender a desconfiar, com honestidade, das próprias certezas.
E talvez seja justamente aí que começa uma escolha verdadeiramente livre.
Quando começamos a perceber que nossas escolhas também podem estar relacionadas àquilo que desejamos, tememos ou esperamos, algumas perguntas deixam de ser apenas políticas e passam a dizer respeito à nossa própria história.
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